
Perspectivas de Cuidado
Nessa seção procurei esmiuçar um pouco mais as perspectivas de cuidado que orientam meu trabalho em contextos específicos.


Cuidado Psicológico à Pessoa Idosa
O envelhecimento é um processo normal e dinâmico, sendo também inevitável e irreversível. As condições crônicas e incapacitantes que frequentemente acompanham o envelhecimento podem ser prevenidas ou retardadas, não só por intervenções médicas, mas também por intervenções sociais e ambientais.
Quando o cuidado familiar não é possível, a institucionalização surge como uma possibilidade. De modo geral, ela possui regras, dinâmicas e estruturas que podem despersonalizar o sujeito, potencializando o surgimento de sofrimentos psíquicos, como: falta de motivação para socializações, baixa autoestima, ansiedades, tristezas, sensação de abandono por seus familiares, dificuldades de se adaptar ao espaço, tensões e angústias relacionadas ao confinamento, a perda de identidade provocada pela institucionalização, as limitações sofridas com o avançar da idade e as marcas deixadas pelos processos existenciais. Tal adaptação pode ser observada como um processo de luto da vida anterior, haja vista a admissão na ILPI implicar em perdas, temporárias ou definitivas, de relações significativas envolvendo pessoas e ambientes de fora da instituição.
A psicologia, nesse contexto, tem como objetivo realizar atendimento às pessoas idosas que estão institucionalizadas sob uma visão do sujeito idoso como um todo, proporcionando um atendimento humanizado e de qualidade. Assim, favorecendo espaço de escuta psicológica, compondo a equipe interdisciplinar.
Esse cuidado pode ser ofertado não só através do atendimento direto ao idoso, mas também pelo atendimento psicológico aos familiares e à equipe do serviço e pela oferta de espaços de capacitação em saúde mental para os profissionais envolvidos.
Cuidado à Pessoa em Sofrimento Mental Grave / Persistente
O sofrimento psíquico é algo inerente à experiência humana. Todos nós, em algum momento de nossas vidas, iremos experienciar tristeza, dor, sofrimento, inadequação.
Algumas pessoas, entretanto, podem vir a apresentar um nível de sofrimento exacerbado e/ou prolongado e que gere prejuízos significativos para sua convivência social. Nestes casos, o acompanhamento por profissionais capacitados em saúde mental se torna essencial.
O sofrimento mental, porém, é extremamente singular, se apresentando de forma única em cada sujeito. Sendo assim, é importante que o paciente possa contar com um profissional que entenda que a saída para este sofrimento também será individual e construída no processo com cada um.
O Projeto Terapêutico Singular, ou PTS, é uma ferramenta crucial para elaborar um projeto de cuidado robusto (ainda que simples), e que leve em conta os diferentes aspectos da vida de uma pessoa que possam estar relacionados ao seu sofrimento. Assim, em um acompanhamento que leve em conta a construção de um PTS não se realiza apenas o atendimento psicológico, mas também atendimento aos familiares e pessoas próximas, reconhecimento do território afetivo e social em que o paciente está inserido, discussão de caso com médicos e outros profissionais que também acompanhem o caso e pactuação frequente com o paciente para juntos construir manejos possíveis.
Em casos de pacientes que residem em SRTs, Moradias Assistidas e ILPIs o PTS também é composto por escuta, capacitação e orientações frequentes à equipe que assiste o sujeito em sofrimento.
Saber reconhecer os primeiros sinais de crise em saúde mental e construir um plano de cuidados quando o paciente está estabilizado também são possibilidades de ferramentas potentes quando há um acompanhamento regular à pessoa com histórico de sofrimento mental.


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Cuidado à Pessoa em Uso Prejudicial de Álcool e Outras Drogas / Jogos
Substâncias psicoativas (SPA) são aquelas que alteram nosso psiquismo por algum período de alguma forma e sempre foram utilizadas pela humanidade. Tem sido cada vez mais comum, entretanto, pessoas que começam a fazer um uso intenso dessas substâncias acabando por ter prejuízos financeiros, sociais, físicos e emocionais.
A Redução de Danos, ou RD, se trata de uma perspectiva ética de cuidado à essas pessoas que necessitam de auxílio para lidar, diminuir ou até sanar os prejuízos advindos deste uso. Na prática da RD, também construímos um Projeto Terapêutico Singular e acompanhamos de forma próxima a criação de estratégias para diminuir o uso de substâncias e, especialmente, diminuir os danos causados por este uso.
Neste tipo de acompanhamento buscamos o entendimento de que há um sofrimento atrelado a este uso abusivo e a partir daí identificar possíveis gatilhos, mas também potencialidades de cuidado no sujeito, nas suas relações e no seu entorno.
Trata-se de uma estratégia ampla e humanizada que consegue, portanto, dar conta do uso prejudicial de álcool, maconha, cocaína, crack, medicamentos para dor, loló e até mesmo do vício em jogos e apostas, como as atuais bets.
Nesse contexto, também se faz importante o acompanhamento por profissional experiente, que saiba identificar contextos de intoxicação e abstinência e que consiga articular encaminhamento para outros serviços e atendimento médico, quando necessário.
Atendimento Psicanalítico ao Adulto
Os atendimentos psicológicos individuais, sejam realizados em consultório, online ou em domicílio, são uma das formas mais conhecidas de acompanhamento em saúde mental.
Em meu trabalho, sou orientada pela psicanálise lacaniana. Em psicanálise, buscamos priorizar a fala do sujeito que está sendo atendido, pontuando questões ou pontos sensíveis, como forma de acessar o inconsciente.
Na vida adulta, com frequência nos deparamos com muitas questões emocionais e psicológicas, sofrendo com nossa autonomia e responsabilidade frente ao nosso desejo. Numa análise, o sujeito terá a oportunidade de fazer uma escuta do seu próprio inconsciente, podendo criar outras formas de lidar com sua angústia.


Supervisão Clínica para Profissionais da Saúde Mental
Trabalho há mais de 10 anos com Saúde Mental. Desde o início da minha trajetória profissional, me interesso pela clínica das psicoses e pelo acompanhamento de casos graves e complexos. Já atuei como referência técnica, plantonista e na gestão na RAPS/BH, inclusive como supervisora de SRT. Nesse percurso, tive a oportunidade de ser orientadora de estagiários e preceptora de residentes.
Casos complexos costumam colocar os profissionais em um lugar de bastante angústia frente à necessidade de reinvenção constante da clínica. Ofereço, então, supervisão para profissionais que estejam atuando na Saúde Mental e considerem que precisam dessa troca para pensar casos desafiadores, construindo juntos propostas de PTS e dando continuidade à formação profissional.
Capacitação em Saúde Mental para Profissionais de Outras Áreas
Em serviços de cuidado, como ILPIs e Moradias Assistidas é comum que muitos profissionais, mesmo experientes, tenham muitas dúvidas quando se trata de Saúde Mental.
Em minha trajetória, percebo que às vezes pequenas atitudes de manejo podem fazer grande diferença no dia a dia do usuário e também facilitar os processos para equipe.
Quando não sabemos lidar com questões de saúde mental, tendemos a nos afastar ou querer isolar o indivíduo que já está em sofrimento.
Acredito que o conhecimento é a principal forma de sensibilizar e capacitar profissionais de qualquer área para uma escuta mais atenta e um consequente cuidado mais acolhedor.
Nesse sentido, já realizei diversas palestras e cursos de curta duração para capacitar equipes e aprimorar o cuidado.
As palestras são mais adequadas para trabalhar temas específicos que já foram identificados como uma fragilidade da equipe, tais como: identificação de crise em saúde mental, manejo de quadros demenciais, redução de danos e uso de substâncias, humanização, dentre outros.
Os mini cursos possibilitam trabalhar temas, mas também trabalham questões de relacionamento da equipe entre si e com os pacientes.
Também é possível a construção de intervenções específicas para uma determinada instituição a partir de visitas de diagnóstico da equipe e do cuidado que vem sendo prestado. Este olhar para a equipe costuma diminuir conflitos interpessoais e também a rotatividade de profissionais.

